Por Rui Lemos (Adaptado de várias fontes da internet)

O vinho que Jesus e os seus discípulos beberam na Última Ceia era kosher, o único vinho permitido aos judeus. A Última Ceia foi registada no Novo Testamento por São Marcos e São Mateus, mas nenhum dos dois registou o que foi comido, que pratos foram servidos, mas todos deviam ter sido Segundo os preceitos kosher.

Mas, certamente, essa refeição teve como objetivo celebrar o Pessach, a Páscoa Judaica, a festa do pão sem levedo, palavra que em hebreu significa proteção, “passagem”, “passar sobre” e deriva de instruções dadas a Moisés para libertar os israelitas do jugo do faraó Ramsés III, à 3000 anos.

Moisés informou o faraó que se não libertasse o seu povo, todos os primogénitos, no Egito, serião mortos. Para se proteger, os israelitas foram instruídos a marcar as suas casas com sangue de cordeiro na umbreira das portas, pois assim as suas casas seriam identificadas e o “problema” passaria sobre elas.

A Páscoa cristã deriva diretamente da judaica. Em ambas, o vinho e o pão constituem símbolos fortíssimos, mas com sentidos diferentes.

O local identificado como o da Última Ceia, o Cenáculo (deriva do latim “cena”, jantar, ceia), em Jerusalém e pode ser visitado ainda hoje. É o segundo andar de um edifício no alto do Monte Sion, ao lado da basílica Dormition, onde Nossa Senhora teria morrido. No andar térreo, fica o túmulo do Rei David. Pois é, as histórias entrelaçam-se.

Mas os significados são outros. No cristão, o corpo e o sangue de Cristo, representados pelo pão e pelo vinho, remetem à salvação do espírito e à vida eterna.

No judaico, o pão é o sem levedo, o matzo, servido para lembrar a pressa com os hebreus tiveram que preparar o seu êxodo do Egito. E quatro taças de vinho são obrigatoriamente bebidas, cada uma simbolizando uma ação relativa à redenção do povo de Israel. São bebidas em períodos distintos da ceia do Pessach. E a cada taça é feita uma benção, o “kiddush”, a santificação.

Mas o que vem a ser vinho kosher?

Kosher quer dizer “apropriado”, o que segue as leis dietéticas judaicas, o “kashrut”.

O vinho kosher começa no vinhedo, com o “orlah” – a proibição de usar os frutos nos primeiros três anos de plantio. Apenas a partir do quarto ano é que poderão colher e prensar as uvas. É o que também acontece num vinhedo novo administrado por não-judeus, que só começa a produzir mesmo a partir do quarto ano do primeiro plantio.

A maioria dos vinhedos de Israel observa também a lei da “shmita”: ao final de cada ciclo de sete anos, o vinhedo precisa descansar por um ano, nada lá será cultivado durante esse período. Criativos, sem desrespeitar a lei, vendem a terra a um não-judeu amigo e a recompram ao fim de um ano. Nada se interrompe.

Do momento em que as uvas são prensadas até ao engarrafamento, essas mesmas leis proíbem também que o vinho seja tocado e, em certos casos, até mesmo visto, por um não judeu ou por algum judeu não religioso.

Para garantir essas leis, as vinícolas kosher empregam apenas “haredim”, judeus ultra-ortodoxos, observantes rigorosos do Torah. Qualquer visitante de um vinhedo kosher será sempre acompanhado por um supervisor do ”kashrut”, assegurando-se de que nada seja tocado. Isto vale até mesmo para um judeu pouco zeloso religiosamente.

Na vinícola, caso alguém não judeu toque nalgum lugar onde haja vinho, este ficará impuro, não é mais kosher. Mesmo na seção de engarrafamento, depois de colocadas as rolhas, só se pode tocar numa garrafa depois dela ser devidamente lacrada.

Todas as substâncias utilizadas no processo, como levedos, sulfitos, ácido tartárico serão obrigatoriamente kosher.

Se este vinho for manipulado e bebido por judeus, ele não será fervido. Caso haja a possibilidade de um não judeu tocar na garrafa (um garçom, num restaurante, por exemplo), a fervura se impõe – mas apenas durante 22 segundos à temperatura de 87ºC. Não vai perder as suas qualidades.

O grande crítico e historiador Hugh Johnson (“A História do Vinho”, Companhia das Letras) diz que, por trás das antigas normas, “mais importante do que o que se bebe é com quem se bebe. Os judeus não devem aceitar vinho dos gentios. Tal intercâmbio social pode levar à intimidade e a intimidade pode levar aos casamentos mistos”.

Os judeus produzem vinho desde os tempos pré-Bíblicos. Chegaram, na Antiguidade, a exportar vinho para o Egito e para várias cidades do império romano. Quando os muçulmanos conquistaram a Palestina em 636, impuseram uma proibição ao vinho (e ao álcool em geral) por 1.200 anos. A produção só recomeçou em 1870.

Na Páscoa Cristã, celebrada a oito de abril, o frade São Tomás de Aquino, o grande filósofo do século 13, explicava o sentido do vinho: ela só pode celebrar-se “com vinho da videira, pois essa é a vontade de Jesus Cristo, que escolheu o vinho quando ordenou tal sacramento […] e também porque o vinho da uva constitui de certo modo uma imagem do efeito do sacramento. Refiro-me à alegria espiritual do homem, pois está escrito que o vinho alegra o coração do homem”.

A Páscoa Judaica começa na noite de dois de abril, com uma ceia ritual, estritamente familiar, onde quatro taças de vinhos são tomadas obrigatoriamente.

Para um rabino citado por Hugh Johnson, o vinho “ajuda a abrir o coração ao raciocínio”. O objetivo, portanto, não é a inspiração, a embriaguez.

Uma quinta taça é deixada sobre a mesa para ser bebida pelo profeta Elias (Elijah). Dizem que ele vai de porta em porta anunciando a vinda do messias judaico.

Estima-se que existam pouco mais de 13 milhões de judeus em todo o mundo. Assim, faz sentido pensar que o profeta, acabada a noite do dia 2, vai dormir muito alegre e profundamente até a Páscoa do ano que vem.

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